domingo, 24 de abril de 2011

ìndios versão 20 ponto 11 publicado no Estado de São Paulo

Ola Leitores Virtuais! Neste momento estamos estabelecendo um parentese nas publicações ampliando a divulgação da materia publica domingo de pascoa de 2011 de minha estimada amiga Barbara Maisonnave Arisi no jornal - O Estado de S.Paulo, que segue:

Acabo de retornar de estadia de campo na Amazônia e fico feliz ao constatar que os índios estão cada vez mais dominando novas tecnologias e com uma mentalidade 20.11, preparando-se para participar das grandes questões globais da segunda década do século 21. Exemplos: meu aparelho celular não funcionava, pois na cidade de Atalaia do Norte só há uma operadora. Quem me salvou ao me emprestar seu aparelho novinho foi um garoto matis ? considerado pela "regra de parentesco incorporador de antropólogos" meu irmão indígena. Fui surpreendida pelo lindo ringtone com um canto de pássaro amazônico que ouvia ao despertar quando morei na aldeia. "Uau, Makwanantê, que lindo. Como gravou o canto desse pássaro?" "Baixei via Bluetooth de graça no cybercafé da cidade." Ok, eu também esqueço às vezes que trabalho com índios amazônicos versão 20.11, os magníficos matis, um povo de língua pano que vive na Terra Indígena Vale do Javari, segunda maior do País, com 8,5 milhões de hectares.

No dia seguinte pedi a outro jovem matis um carregador de bateria para minha câmera digital e ele trouxe um carregador universal made in China comprado na Colômbia (fronteira próxima). Serve para qualquer tipo de bateria e dribla a imposição de empresas como Sony ou Motorola com modelos que nos obrigam a comprar mil traquitanas. Os índios 20.11 sabem escolher o que lhes dá autonomia mesmo entre as quinquilharias chinesas e surpreendem aqueles que, no Brasil "metropolitano" (para usar um termo cunhado por Manuela Carneiro da Cunha), acham que os indígenas amazônicos vivem na Idade da Pedra ou num paraíso (ou inferno) pré-industrial. Os ameríndios com quem tenho o prazer de conviver podem estar esquecidos nas políticas governamentais, mas se movimentam no universo de questões globais como mercado de crédito de carbono e uso de tecnologia para melhorar a vida em suas comunidades. Alguns estão na universidade e serão em breve professores universitários. Afinal, índios não ficam em cristaleira de museu ou apenas decoram pôster festivo da brasilidade para fazer jus ao logo federal "Brasil, país de todos". Os índios seguem sendo bem índios mesmo portando seus celulares, editando filmes, torcendo pelo Flamengo. E continuam necessitando demarcar terras, especialmente em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Para isso mesmo, precisam e gostam de tecnologia, para estarem plugados no mundo, como você e eu.

Em Manaus, conheci a vice-coordenadora da Coiab (Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), Sônia Guajajara. Ela ficou famosa na COP-16 (última conferência da ONU sobre mudanças climáticas), em Cancún, México, ao entregar o troféu "motosserra de ouro" à senadora Kátia Abreu ? prêmio dado aos que aumentam o desmatamento na Amazônia. Como Sônia, há outros índios que aprenderam o glossário da "economia mundial ambiental", sabem o que é Redd (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação). Ou seja, estão afinados com a economia ambiental e combatem ideias australopitecas dos defensores da reforma do Código Florestal.

Graças aos índios brasileiros é que a floresta ainda está em pé, conforme demonstram imagens do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Vizinhos dos matis, os índios maiorunas vivem em ambos os lados da fronteira do Peru e do Brasil e, nos últimos anos, vêm migrando para nosso País por causa da atuação de empresas multinacionais que concessionaram áreas em seus territórios com o aval do governo do Peru. Os mesmos maiorunas, em 2003 e 2004, chamaram a atenção das autoridades para o contrabando de madeira realizado por peruanos. Os Estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia, sempre citados como destruidores do meio ambiente, só apresentam indicadores positivos devido às terras indígenas. Os índios também denunciam as rotas do narcotráfico em seus territórios.

Além desses serviços ao País, os índios também investem em economia criativa. Querem que sua juventude aprenda a utilizar telefones celulares, laptops e câmeras de vídeo para que eles próprios tenham domínio sobre a produção (e também o consumo, em alguns casos) da indústria da criatividade, que os jovens indígenas façam seus próprios filmes, vendam CDs de suas músicas, tenham eles próprios controle sobre seus bens imateriais que por tantos anos foram produzidos e vendidos por estrangeiros ou outros brasileiros. Os índios têm todo o direito de se tornarem big players na indústria do entretenimento. Como demonstram sucessos como o filme Cheiro de Pequi, da Associação Indígena Kuikuro e do Vídeo nas Aldeias, que ganhou o prêmio de melhor curta-metragem em Montreal, no Canadá. Chegará logo o dia em que teremos cineastas indígenas concorrendo em Cannes.

É bom lembrar, porém, que nem tudo na realidade indígena são cantos de pássaros e tecnologia. No Javari, cerca de 80% da população indígena está contaminada por hepatites virais que provocaram a morte de 300 pessoas nos últimos dez anos. Há alguma esperança com a nova Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) de que haja atendimento permanente para as 55 comunidades. A Funai, em processo de reestruturação, havia decidido desmontar a administração regional na cidade de Atalaia do Norte, deixando os cerca de 3.800 índios que moram na Terra Indígena sem uma base administrativa próxima. Parece que quem vive em Brasília olha o mapa do Javari apenas pendurado na parede e, por isso, pensa que os rios do Javari correm do norte para o sul! Porém os rios do Javari correm todos na direção norte e oeste para formar o Solimões e, a partir de Manaus, o Amazonas. Certamente, os índios terão muitos direitos a exigir nos protestos do Abril Indígena, programados para ocorrer em maio em Brasília.

As grandes questões globais estão na Amazônia e os índios, melhor do que a maioria dos brasileiros, já estão se preparando para lidar com esse mundo 20.11 ? de preocupações com energias limpas (pós-Fukushima), onde os países ricos pagam aos "emergentes" para que mantenham suas florestas em pé, onde as tecnologias made in China tomam o lugar das que fazem carregadores não universais, onde quem tem força de sobrevivência é quem vai vencer e deixar para trás os acomodados. Os índios brasileiros já mostraram que vieram para sobreviver. Desde 1500 têm conseguido se manter vivos, o que em si, já é um feito e tanto. Agora, parece que vão nos ensinar o que fazer para sermos um país rico em biodiversidade, em captura de carbono e em economia criativa. Tenho tentado acompanhá-los e aprender com eles.

BARBARA MAISONNAVE ARISI É DOUTORANDA DO PROGRAMA DE ANTROPOLOGIA SOCIAL UFSC. ESTAGIOU NO INSTITUTE OF SOCIAL AND CULTURAL ANTHROPOLOGY DA UNIVERSIDADE DE OXFORD

terça-feira, 12 de abril de 2011

DIAGNOSTICO EPIDEMIOLOGICO


Ola! Leitores! Vamos falar aqui sobre A crise atual de saúde no Vale do Javari (mas, talvez seja planetária), afinal ainda não esta decidida quem vai ocupar os lugares e os cargos e, as ações diárias vão sendo ‘sucateadas’ já há quanto tempo? Por que ‘sucateada’? Pela falta de planejamento para organizar as ações mantendo desta maneira ‘a ineficiência de assistência’ do estado no quesito saúde, mas as questões educacionais não vão lá muito melhores.
A campanha SOS Javari (intitulada assim pelo movimento indígena) organizou com o CTI (centro de trabalho indígena) e ISA (instituto socioambiental) uma equipe para mais uma vez busca gerar um diagnostico epidemiológico, ou, “apresentar um diagnóstico antropológico que servirá como base para o planejamento, a execução de ações e a divulgação da Campanha SOS Javari. O diagnóstico será especialmente destinado aos profissionais de equipe multidisciplinar a ser montada sob coordenação do CTI e do ISA (composta por antropólogos, infectologistas, sanitaristas, AIS, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, motoristas, pilotos, entre outros).”
Pois, a proposta, convenhamos, ate agora para as ações de melhoria da Sesai (antiga FUNASA), já começa a demonstrar que, nada muda. Mas longe aqui de atirar pedras a atual crise... O quer esta coluna é possibilitar o espaço do questionamento das idéias.
Veja, diagnostico da região já foram exaustivamente realizadas, inclusive pelo próprio Conselho Nacional de Saúde, “Desafios da Saúde Indígena: o que podemos e precisamos fazer para assegurar ações de saúde e intersetorias para melhorar a qualidade de povos indígenas do Vale do javari e Alto Solimões”, que aconteceu em agosto do ano passado (2010) em Tabatinga, do qual contou com expressiva participação de indígenas e instituições, mas como já o título mostra - o tamanho do problema!
O produto produzido neste encontro demorou meses para ser entregue, pra chegar só o resultado escrito do diagnostico realizado no encontro, não estou falando de por em pratica o que foi ‘diagnosticado’. Bem outra coisa, (esta coluna já apontou o tema A difícil questão da liderança, janeiro de 2010, veja o blog) esta claro se as lideranças nas comunidades, não forem ouvidas, apenas esses encontros rápidos na cidade, vão resultar em movimentações políticas que pouco, ou nada tem haver com a questão central de nossas aflições, a saúde. A Educação, o protagonismo e a ética indígena estão sendo posto a prova perante as ações (ou ausência) de apoio do Estado. O que realmente vai se firmar? A suave distinção, o conflito de interesses, ou a pasmaceira mesmo (que vem acarretando alarmantes índices de mortalidade, a não entrega dos exames sorológicos).
Mas olha tem ocorrido propostas interessantes, pontuais, diga-se de passagem, houve em fevereiro uma proposta interessante na Frente de Proteção Etno- Ambiental Vale do Javari (confluência do Ituí-Itaquaí) sobre doenças sexualmente transmissíveis, com foco na AIDS e hepatite (alta incidência desta segunda enfermidade entre os indígenas da região). Parte da ação do AmazonAids esta na produção de um material nas línguas nativas, após o encontro que durou dias, e envolveu os povos de língua pano da TIVJ.
Ainda acontecerá no período de 26 de Abril a 08 maio de 2011, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, bairro Praia Grande, Centro Histórico de São Luís a V Semana dos Povos Indígenas no Maranhão. Esta quinta edição da Semana o consolida como um importante evento cultural, no qual os indígenas serão os principais protagonistas. Estes irão apresentar suas práticas sócio-culturais, sua cosmovisão, mitologia, suas celebrações e seus modos de vida dos povos indígenas: Guajajara-Tenetehara; Urubu - Ka’apor; Awá – Guajá; Krikati; Gavião; Canela; Timbira e Kreniê.
Durante a Semana acontecerá uma série de atividades de divulgação da riqueza e da diversidade cultural dos povos indígenas tais como: mostra de vídeos etnográficos; exposições de fotografias; oficinas temáticas de pintura corporal; cantos; mitos e língua; mesas redondas; feira de artesanato e exposição de acervo arqueológico; material etnográfico e material didático indígena.
Por que será que nada acontece por aqui no Alto Solimões, no Amazonas? Cultura não é folclore! Não ignore, vai ficar ai parado?
Para finalizar esta edição alguns tópicos extraídos do Plano Setorial para as Culturas Indígenas / MINC; SID – Brasília, 2010. que acreditarmos ser fundamentais para o inicio da solução, no caso indígena:
-Incentivar os processos tradicionais de transmissão de saberes e práticas de modo a promover o reconhecimento dos métodos e dos processos educativos tradicionais e a valorização dos sábios indígenas (xamãs, contadores de histórias, parteiras, cantores, etc.) e dos anciãos como detentores de conhecimentos e da memória viva das comunidades e povos indígenas.
-Possibilitar a criação de espaços comunitários para o diálogo e a reflexão sobre temas culturais de interesse dos povos indígenas propiciando condições para que os mesmos construam estratégias de fortalecimento, valorização e revitalização das suas culturas;
Incentivar a troca de experiências e o intercâmbio entre comunidades e povos indígenas visando o fortalecimento das iniciativas culturais.
-Informar a sociedade não-indígena sobre a contribuição dos povos indígenas para a diversidade cultural e para a formação da identidade nacional;
-Propiciar a inclusão digital dos povos indígenas garantindo-lhes o acesso às tecnologias de informação e da comunicação;
-Qualificar e criar mecanismos de gestão das políticas públicas a serem implantadas em contextos socioculturais diferenciados.

O dia do índio, é todo dia, todo dia do índio. E lembrem-se, só não é índio, quem não é!